terça-feira, 29 de agosto de 2017

A casa comercial: representatividade arquitetônica na paisagem da colonização



Loja Schoeler, São João do Oeste, em 1956. Foto: Casa da Cultura.
A casa comercial possui uma representatividade histórica e simbólica em grande parte das frentes colonizatórias do Sul do Brasil. A figura do comerciante e seu papel no desenvolvimento dos projetos de colonização e de formação das zonas de ocupação, é de considerável relevância na formação das identidades regionais e no desenvolvimento das atividades comerciais e produtivas, principalmente nas regiões de colonização teuto e ítalo-brasileira. A casa comercial desempenhou um papel significativo na paisagem urbana e rural dos núcleos coloniais.

Comercial Schoeler, Sede Capela, interior de Itapiranga. Edificação construída em 1928. Foto: Simone Eidt. Fonte: >http://www.25dejulho.org.br/2013/09/itapiranga-pela-otica-de-simone-edit.html>. Acesso em 07/08/2017
Na região de Itapiranga, São João do Oeste e Tunápolis (antiga Colonização Porto Novo fundada em 1926), as casas comerciais são simbólicas possuem representatividade arquitetônica na paisagem local.
Os comerciantes foram influentes no desenvolvimento da colônia Porto Novo, porque representaram a perspectiva de desenvolvimento econômico através da geração de divisas financeiras, uma espécie de excedente monetário produzido através da comercialização dos produtos de valor comercial produzidos pelo colono. Da mesma forma, foram os comerciantes que ofereciam em troca de dinheiro ou de produtos coloniais, a matéria prima de consumo necessária para a sobrevivência da colônia e que não poderia ser produzida nas propriedades da região.
Casa comercial em Itapiranga, década de 1940. Fonte: Museu Comunitário Almiro Mueller.

Comerciante na Vila São João, 1949. Foto: Casa da Cultura
 A casa comercial é um referencial de memória e de identidade da formação histórica local. Muitas edificações já foram demolidas, mas outras ainda estão presentes no cenário local desempenhando um papel de memória patrimonial considerável.
Vila São João em 1953. Foto Casa da Cultura, 




 









quarta-feira, 26 de julho de 2017

Igreja São Rafael, Linha Popi, Itapiranga-SC



Por: Daniele Tessing, Daiane Müller, Denise Reinehr
Acadêmicas do Curso de Arquitetura e Urbanismo
FAI Faculdades

Porto Novo tem como data de início da colonização abril de 1926. Fundada sob coordenação da Volksverein, foi idealizada para receber colonizadores de ascendência alemã e católica. A base da colonização foi pensada para distribuir lotes coloniais com a formação de núcleos comunitários, vilarejos onde se estabelecia casas comercias, a escola e a Igreja e clube recreativo. 
A comunidade de Linha Ipê Popi está localizada a cerca de treze quilômetros da sede do município de Itapiranga – SC. É considerada uma das mais antigas comunidades de Itapiranga sendo fundada logo após a colonização.
A comunidade de Popi foi fundada nos primeiros anos de colonização de Porto Novo.
 
Centro comunitário de Popi, 1997. Fonte: Comunidade de Popi





Antiga Igreja construída em 1929. Fonte: Comunidade de Popi

 A nova Igreja São Rafael

Nos anos de 1950, a comunidade se mobilizou com a finalidade de construir uma nova igreja para a comunidade, uma vez que a antiga já não comportava o número crescente de moradores. Foi contatado o mestre de obras Reinoldo Goetz, que ficaria responsável por comandar todo o processo de construção.
Como naquela época havia uma grande dificuldade de conseguir recursos das esferas municipal, estadual ou federal, a Igreja foi erguida através do trabalho voluntário dos moradores da comunidade. A grande maioria destas pessoas era responsável pela identificação e derrubada das arvores de maior porte que serviriam para a construção, ou então, pelo transporte que era realizado por força animal.
Apenas para citar, relatos dão conta de que o morador Aloisio Hass popularmente conhecido por Sony, proprietário de uma serraria, dedicou 30 dias de seu trabalho inteiramente voluntário para a construção da igreja. Assim fora com a maioria das famílias da comunidade.

Num gesto de espírito comunitário os sócios da comunidade de Linha Ipê-Popi, sob a orientação de um mestre de obras se empenharam e construíram esta capela, uma verdadeira obra de arte. Tudo isso com os trabalhos em mutirão dos moradores da comunidade, além de doarem toda a madeira para a construção. As espécies de árvores retiradas da mata para a construção foram a Cabreúva (Myrocarpus frondosus) para as estruturas, a Cana fístula (Peltophorum dubium) e o Pinus para o fechamento com tábuas.
Na época havia madeira abundante nas matas, no entanto as dificuldades foram grandes para derrubada das toras, transporte para serraria e levantamento da obra. As estradas eram estreitas e por isso as carroças carregadas com as toras enfrentavam dificuldades para se locomover.

Composição estrutural na construção em 1952. Fonte: Comunidade de Popi
Na fotografia acima, da composição da estrutura, pode-se observar as pilastras que são peças únicas de madeira com 11 metros de altura e seção de 30 por 30 centímetros aproximadamente. O pé direito livre na nave central também se aproxima dos 11 metros de altura. Aos fundos, aparece também a estrutura do que viria a ser o coro (local onde se localizava o coral durante as celebrações. Os ripamentos da estrutura tem seção aproximada de 20 por 20 centímetros.

Na fotografia com vista lateral é possível ter uma noção da dimensão da igreja. Se observarmos a estrutura, esta tem traços que se assemelham ao enxaimel, mas, para se ter certeza deste fato, seria necessária uma análise técnica mas detalhada. Atualmente esta estrutura não é visível, por estar coberta pela vedação das tábuas de madeira.
 
Vista frontal da Igreja em 1952. Fonte: Comunidade de Popi.
Estrutura, vista lateral em 1952. Fonte: Comunidade de Popi


No dia 21 de dezembro de 1952 foi inaugurada a atual igreja e no mesmo dia o Padre Helmut Kayser celebrou a sua primeira missa nesta capela. Neta data, ela ainda não era pintada. Segundo relato, o fato foi intensamente comemorado pela comunidade com 3 dias de muita festa.
Internamente, seguindo a tradição dos cultos da época, o altar na parede e o celebrante realizava as missas de costas para as pessoas e geralmente em latim. Em frente ao altar havia uma divisória para separar as pessoas do celebrante aonde as pessoas se ajoelhavam em fileira para receber a sagrada eucaristia. Durante as celebrações, apenas o celebrante e os coroinhas tinham acesso ao altar. 


O posicionamento das carreiras de bancos também era característico da tradição religiosa local. Eram quatro carreiras, como pode ser observado na imagem abaixo tirada durante uma festividade com a igreja ainda não pintada, onde os homens a direita e as mulheres a esquerda, e nas naves laterais ficavam as moças a esquerda e os rapazes a direita.

Celebração religiosa, paredes ainda sem pintura. Fonte: Comunidade de Popi

Não se sabe ao certo a data em que foi realizada a primeira pintura, pois não há nenhum registro em ata, porém, pelas imagens é possível concluir que ocorreu entre os anos de 1959 quando há o registro fotográfico do encontro das moças da Congregação Mariana em frente à igreja ainda sem pintura e outras imagem que datam de 1969 já é possível identificar a pintura em registro fotográfico da substituição da cobertura.
A cobertura original da igreja foi feita com telhas coloniais. Em 1969 decidiu-se  fazer a substituição por telhas de zinco. Nas imagens abaixo podemos observar diversos trabalhadores empenhados na retirada das antigas e colocação das novas telhas. É possível verificar uma grande parte já substituída e uma porção ainda por substituir. Em ambos os lados da igreja foram construídas rampas de madeira para permitir os trabalhadores subirem e descerem da cobertura.

 
Fachada lateral quando da troca da cobertura em 1969. Fonte: Comunidade de Popi




Em 1985 foi realizada uma reforma geral da estrutura, com substituição de tábuas e algumas aberturas que foram afetadas pela umidade. Também foi realizada a pintura tanto interna quanto externa e da cobertura. Uma das alterações que foram realizadas nesta reforma de 1985 foi o reforço dos pilares com tijolos maciços.

Reforço do pilar com tijolos. Foto: Daniele Tessing



Como não havia a possibilidade da retirada dos pilares de madeira cerca de 50 por 50 centímetros, estes acabaram permanecendo no local até hoje. Pode-se verificar a deterioração onde a estrutura tem contato com o solo. Isso se dá porque, na época da construção não se tinha um conhecimento de impermeabilização, por isto a durabilidade deste material não é de prazo muito longo.
Desde então, de anos em anos a igreja recebeu pequenas reformas, como a pintura do telhado, construção da rampa, do caminho de acesso na frente, a substituição eventual de tabuas deterioradas entre outras.

Em 2010, a estrutura da igreja foi atingida por cupins. Com isto, foi necessária uma reforma na estrutura de madeira da igreja. Não se sabe o quanto da estrutura que teve que ser substituída, nem se foram mantidas as espécies de madeira originais.

Nave Central, 2016. Foto: Daniele Tessing
Nave central, 2016. Foto: Daniele Tessing



Em 2013, houve a reforma da cobertura com substituição das telhas de zinco por telhas de aluzinco e a pintura interna. Além disto, algumas adequações foram feitas para adequar o espaço ás normas do Corpo de Bombeiros. Na ocasião, foi interditado o acesso ao coro, uma vez que a escada possui medidas fora das normas de segurança, com degraus de cerca de 15 cm de largura.


Em 2014 foi realizada a retirada total das instalações elétricas antigas e feita uma totalmente nova, uma vez que a antiga apresentava alguns problemas e oferecia risco de incêndio. Por ser uma construção quase que exclusivamente de madeira, um possível curto  poderia  causar grandes danos nesta edificação de grande importância para a comunidade. Ainda no mesmo ano foi realizada a pintura externa da igreja que por muitos anos era verde, sendo pintada de amarelo.
Fachada lateral atual, 2016. Foto: Daniele Tessing.

Acesso ao coro, 2016. Foto: Daniele Tessing

 
Congregação Mariana, 1959. Foto: Comunidade de Popi
Fachada Lateral, 1969. Fonte: Comunidade Popi

 
Confessionário original da Igreja. Foto: Daniele Tesssing


Harmônio preservado mas não mais utilizado. Foto: Daniele Tessing

 
Fachada no ano 2000. Fonte: Comunidade de Popi