terça-feira, 12 de março de 2019

Telhado Capacete Renano (Rheinisch Helm ou Rhombendach)




por Douglas Orestes Franzen
Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Uceff Itapiranga

O telhado renano consiste numa composição cumeira formada de quatro losangos irregulares com dimensões iguais, sustentado por quatro frontões que encimam a torre da Igreja. É um padrão arquitetônico muito utilizado em Igrejas de arquitetura românica, muito comum na região da Renânia na fronteira entre Alemanha, Suíça e França e Holanda, às margens do Rio Reno, principalmente no território sob predomínio do catolicismo. É também a região do Hunsrück, origem de muitos imigrantes alemães que imigraram para o Brasil.

Essa é uma manifestação arquitetônica característica de uma região, técnica empregada para criar uma identidade regional no período feudal europeu. Na Alemanha, região da Renânia-Palatinado (Rheinland-Pfalz), podemos encontrar esse formato de telhado na Catedral de Speyer (Speyer, Alemanha) na Igreja St. Kastor (Koblenz, Alemanha) na Mariendom (Andernach, Alemanha), na Igreja de Münster (Roermond, Alemanha), Herz Jesu Kirche (Koblenz, Alemanha).
Catedral de Speyer (Speyer, Alemanha)

Mariendom (Andernach, Alemanha)

Abadia Maria Lach (Região de Eifel, Alemanha)
Abadia Maria Lach (Região de Eifel, Alemanha)

Herz,Jesu-Kirche, (Koblenz - Alemanha)

Em Porto Novo, região com forte ocorrência da imigração alemã no Oeste de Santa Catarina, podemos encontrar várias igrejas com esse padrão de torre sineira (Turm). A Igreja da Paróquia São João Berchmans de São João do Oeste (em madeira), na Igreja de Linha Beato Roque em São João do Oeste (em alvenaria), na Igreja de Linha Popi em Itapiranga (em madeira).
Igreja de Beato Roque, São João do Oeste

Igreja de Beato Roque, São João do Oeste

Igreja de Linha Popi, Itapiranga-SC


Estrutura da Igreja Linha Popi, com detalhe da estrutura das torres.
Igreja de São João do Oeste-SC

Igreja de São João do Oeste, quando da sua construção na década de 1950.

Perspectiva da Igreja de São João do Oeste-SC

É a arquitetura que se manifesta no espaço e cria uma identidade histórica e patrimonial. A arquitetura possui essa dimensão simbólica de conectar a história ao presente, de aproximar diferentes regiões. São essas dimensões do patrimônio que precisam ser consideradas nos debates acerca da preservação da identidade histórica, da cultura, do turismo, do desenvolvimento regional.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

As casas de Porto Novo: Residência Konzen/Jungbluth



As casas têm histórias, evocam memórias, vivências e experiências de vida. Cada residência emana uma vivência familiar que constitui vínculos com a cultura, com a tradição e com os saberes.

A família Konzen
Toda história tem um começo, tem um encadeamento de acontecimentos que precede o limiar de uma nova história, de uma nova vivência. Foi através do casamento de Arlindo Konzen e Olga Hammes que se inicia a bela história da família na comunidade de Cristo Rei, no município de São João do Oeste. Arlindo Konzen nasceu em 17 de Maio de 1919 em Passo do Sobrado, então município de Santa Cruz do Sul.  Olga Hammes nasceu em 05 de Abril de 1921 em Arroio do Meio. Arlindo veio morar com seus pais na comunidade Linha Jaboticaba, quando tinha cinco anos de idade.  A família de Olga estabeleceu residência na Vila São João. Na vida tenra da juventude se conheceram nos regrados bailes de Porto Novo. Diante da comunidade católica estabeleceram matrimônio no ano de 1944 na Igreja da Vila São João.
Como opção de moradia a família adquiriu um lote de terras na comunidade de Cristo Rei, às margens do Riacho Fortaleza. Na época a colonização de Porto Novo estava atingindo seus limites territoriais e a região de Cristo Rei era uma nova frente de colonização. Por isso a família Konzen foi uma das pioneiras da comunidade. De início a família construiu um rancho às margens do riacho, onde residiu durante 11 anos e onde nasceram os primeiros filhos.
Família Konzen. Fonte: Arquivo da família.

A história da casa
Com a propriedade já estruturada e a prosperidade financeira relativamente melhor, a família decidiu construir uma nova morada. A partir disso, no ano de 1955, é construída a casa em madeira que encontramos ainda hoje na propriedade. O primeiro filho que nasceu nessa casa foi Romeu Konzen. Ao todo foram 17 filhos: Arno, Maria, Teresa, Ivo (em memória), Neli, Ivone, Nestor, Alice, Romeu, Hedi, Beno (em memória), Helena, Hugo, Walter, Nair, Pedro (em memória) e Beno (em memória).
Aos padrões atuais é difícil compreender como uma família conseguiu educar 17 filhos. Numa época em que as dificuldades eram inúmeras, as famílias precisavam criar alternativas de subsistência e vivência para dar conta dos desafios cotidianos. A casa era uma simbiose de convivência familiar, onde os cômodos se vinculavam criando uma harmonia moral e religiosa que caracterizou grande parte das famílias de Porto Novo. O espaço de morada ia para além das paredes da casa, se expandia para a propriedade, para o potreiro, para o estábulo, para a roça e para a comunidade. Olga faleceu em 1983 e Arlindo em 1994, os filhos cresceram e passaram a construir seu próprio destino. Atualmente quem cuida da propriedade e zela pela preservação da casa são Aloísio e Helena, que ali educaram seus dois filhos: Michel (em memória) e Uilliam. A família se orgulha da residência e da propriedade, mantêm vivas as memórias familiares, as tradições, os espaços simbólicos e conserva objetos significativos para a trajetória da família Konzen.

Sua dimensão arquitetônica
A arquitetura em madeira possui uma dimensão muito significativa para a colonização Porto Novo. Ela reflete uma forma de construir de um período em que a madeira representou um dos alicerces da economia local, principalmente nessas edificações históricas em que o uso das madeiras hoje consideradas “exóticas” ou “de lei” eram empregadas de forma mais usual.
Para construir uma edificação em madeira era necessário ter muito conhecimento sobre os materiais, mas principalmente sobre as técnicas construtivas. Por isso que a carpintaria foi uma atividade muito significativa para o desenvolvimento da colônia. A casa foi construída em 1955 pelos carpinteiros Edgar Hammes e (?) Lauxen.

A casa foi construída com madeira de araucária, trazida da região de São Miguel do Oeste onde o irmão de Olga possuía uma madeireira. Os barrotes (Balken) e os baldrames são inteiriços e foram retirados da mata nativa da comunidade vizinha de Linha Medianeira e talhados a mão.  O assoalho (Fussboden) ainda é o original e se encontra muito bem conservado.
A residência Konzen possui uma volumetria característica da colonização germânica no Sul do Brasil. Toda em madeira possui uma planta retangular (13m x 7,5m) com os cômodos distribuídos funcionalmente ao longo de um corredor de acesso a partir do cômodo principal que é a cozinha. No pavimento superior encontramos o sótão (Speiger) que antigamente servia de quarto para os meninos e hoje serve como depósito. O telhado é suportado por esteios encaixados que liberam um vão que possibilita sua utilidade. Outro detalhe é o seu formato chanfrado na parte frontal e posterior, elemento que cria uma plástica arquitetônica e tipológica comum em colonizações germânicas. Em seu interior ainda encontramos mobiliários originais, como o relógio carrilhão com pêndulo, muito comum nas casas coloniais.

O sótão - Speiger

Relógio carrilhão com pêndulo

Mobiliário da família Konzen

Malas da família Konzen

Barrotes inteiriços, talhados a mão com instrumentos coloniais

Estrutura treliçada do telhado.

Janela do sótão

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Grosser Gott, Wir loben Dich


Grosser Gott, Wir loben dich. Uma das melodias mais conhecidas do catolicismo nas colonizações alemãs. Originalmente escrita na Alemanha, no ano de 1771 pelo Padre Ignaz Franz no contexto do Iluminismo europeu. A canção é muito difundida nas celebrações religiosas, tanto católicas quanto protestantes. É uma melodia muito celebrada em canções jubilosas ou em Ação de Graças.  Tornou-se um dos hinos religiosos mais conhecidos e difundidos no meio católico.


Performance de Earth Choir and Animato Symphonic Orchestra

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Franz Deiss: um carpinteiro alemão em Porto Novo


por Douglas Orestes Franezn
Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Uceff Itapiranga

Franz Xavier Deiss nasceu em 16 de Agosto de 1909 na vila de Eglofs, Alemanha. Com a tomada do governo pelos nazistas na Alemanha e a ameaça da perseguição política, étnica e da ameaça eminente de uma nova guerra, imigrou para o Brasil no ano de 1933. 

Adquiriu um lote de terras na Colônia Porto Novo na comunidade de Linha Laranjeira, nas proximidades do leito do Rio Macaco Branco. Na Alemanha Franz já dominava o ofício da carpintaria (Tischler), atividade que desempenhou em Porto Novo, destacando-se na construção de residências, sedes sociais e de Igrejas. Com sua habilidade como carpinteiro disseminou em Porto Novo a técnica do enxaimel, herança cultural da imigração alemã em Itapiranga. Foi ele o mestre carpinteiro na estruturação do telhado da Igreja Matriz da Paróquia São Pedro Canísio de Itapiranga e na construção da Igreja em madeira da Paróquia São João Berchmans de São João do Oeste. Possuía uma habilidade memorável no trabalho com a madeira.

Residência Deiss em Linha Laranjeira.

Na foto acima vemos a primeira residência construída pela família Deiss na Linha Laranjeira. Essa edificação acabou sendo destruída por um incêndio. Franz foi casado com a alemã Maria Pia Deiss, com a qual teve três filhas: Margot, Cristina e Margarida. Depois de alguns anos Maria acabou retornando para a Alemanha com as três filhas.
Franz sempre teve uma personalidade muito marcante e instável, aspecto que é perfeitamente compreensível devido a sua vida na instável Alemanha do início do século XX. Nos últimos anos de sua vida costumava desaparecer em meio à mata ficando dias isolado em acampamentos. Foi inclusive internado em hospital psiquiátrico de Porto Alegre. 
Em seus últimos 25 anos de vida ficou aos cuidados de Maria Weth Theobald, na Linha Laranjeira. Faleceu no dia 22 de Abril de 1992, tendo seu leito de morte no cemitério da comunidade de Linha Laranjeira. 
Sua memória precisa ser preservada pela sua herança arquitetônica que deixou para a colonização de Porto Novo.









quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

As casas de Porto Novo: o construtor Luiz Ott


Por Douglas Orestes Franzen
Curso de Arquitetura e Urbanismo - Uceff Itapiranga

A história de Luiz Francisco Ott
Qual a herança que deixamos para a posteridade? O que construímos ao longo de nossa vida e que se mantêm como patrimônio para as gerações futuras?  Certamente uma profissão que deixa sua marca na paisagem é a de construtor (Baumeister). Construir uma residência envolve conhecimento, envolve talento. Um traço marcante, um volume, um ornamento, um formato de telhado, o acabamento, um detalhe significativo. Construir é uma obra de arte.
Luiz Francisco Ott é um construtor que merece o reconhecimento pela sua importância para a história de Porto Novo. Construiu inúmeras residências em alvenaria e madeira que atualmente compõe a paisagem do núcleo histórico de Chapéu-Capela-Macuco.  Sua contribuição para a história de Porto Novo é inestimável e precisa ser reconhecida pelo seu talento e inovação que hoje dignifica o patrimônio arquitetônico e materializa a memória da colonização.
Luiz nasceu 24 de Agosto de 1922 em São Sebastião do Caí. Filho de Jacob e Paulina Ott, aprendeu desde cedo o ofício de pedreiro e de carpinteiro. Casou-se com Erna Flach no ano de 1946, com quem teve 15 filhos. Devido às dificuldades na velha colônia e ao desafio de melhorar a sua vida, veio morar na Linha Chapéu em 1949. Durante três anos morou na vila de Chapéu e depois adquiriu uma propriedade agrícola onde passou a viver com sua família. Luiz faleceu no ano de 2005 deixando um legado muito significativo para a história de Porto Novo.

A sua herança para Porto Novo

Em Porto Novo, Luiz aprimorou sua habilidade de construtor sempre motivado pela inovação. Luiz se destacou pela sua habilidade na carpintaria e na confecção de objetos e aberturas em madeira. Na década de 1950 que construiu a maior parte das edificações que ainda se encontram pela região.  Na maioria das casas que construiu foi ele mesmo quem fez as aberturas em madeira com um aprimorado requinte. Com a habilidade na madeira produziu objetos para residências, oratórios, nichos em madeira e inclusive caixões para sepultamento.
Ao longo de sua atividade como construtor colaborou na construção de inúmeras residências e igrejas. Auxiliou na construção da igreja de Bom Princípio-RS e na igreja de Linha Chapéu, juntamente com seu irmão José, que morou por ali durante um ano enquanto perdurou a obra. José foi quem inclusive construiu o campanário (Turm) da igreja.  
Igreja de Linha Chapeu, Itapiranga. Fonte: Arquivo da família Ott.

Igreja de Bom Princípio, RS. Fonte: Arquivo da família Ott

Como residências podemos destacar a da família Düngersleben (pioneira de Porto Novo), da família Meier em Macuco, da família Machry em Chapeu, da família Burich em Macuco, da família Terhorst em Chapéu, da família Machry/Sidegum em Chapéu. Inúmeras outras foram construídas pela região. Seu filho Miguel lembra que seu pai, várias vezes ficava muitas dias fora de casa trabalhando como construtor.

Residência Düngersleben no ano de sua construção em 1959. Fonte: Arquivo da família Ott.

O que diferencia o trabalho de Luiz Ott é sua habilidade como carpinteiro e sua perspicácia na produção de ornamentos na fachada das residências em alvenaria, além de dominar a técnica da escaiola. Como carpinteiro construiu a casa enxaimel da família Machry em Chapeu, que hoje ainda está em ótimo estado de conservação.  As aberturas de grande parte das residências que construiu ele mesmo fez, deixando sua marca com detalhes e florais nas portas.
As casas de alvenaria eram construídas sem o uso de ferro, somente com tijolos maciços e barro. Os telhados em formato cupiá são outro elemento significativo para essas residências históricas. Sua habilidade na ornamentação de fachadas delineou seu estilo e seu talento. Geralmente esculpia na fachada os letreiros do proprietário, o ano de construção além de volumes e desenhos como estrelas e formas geométricas.  Nos anos 1950 era comum se fazer uma fundação com blocos maciços de pedra, trabalho feito na maioria das vezes por Wilibaldo Schmitz. Nas residências Meier e Burich de Macuco, essas pedras foram tiradas do leito do Rio Macuco e transportadas de carroça até a propriedade da família. Em geral a construção de uma casa demorava em torno de um ano para ser concluída.
A escaiola é outra marca registrada de Luiz Ott. Essa é uma técnica centenária trazida da Europa e criada na época do Renascimento parar imitar o granito e o mármore da era clássica. Consiste na técnica de aplicação de gesso ou cimento na parede com aplique de alguma tintura, o que proporciona uma aparência texturizada muito significativa. Em Porto Novo, Luiz utilizou da técnica de escaiola na maioria das residências que construiu. Para a confecção da escaiola ele fez uso de duas variações.  A primeira consistia na simples aplicação de cimento branco na parede com a aplicação posterior de aplique de tinta, que ele fazia com um pincel confeccionado com uma espiga de milho envolto naqueles antigos sacos de soja costurados a mão. Com uma perspicácia e uma paciência memorável, ele aplicava a tintura ordenadamente na parede proporcionando um mosaico muito aprimorado. A segunda forma de escaiola, essa mais original e requintada, era feita com uma massa formada de cimento branco, leite e tinta. O aplique desse composto na parede gerava um efeito muito texturizado, liso e brilhante.
Outro elemento a destacar é a confecção dos parapeitos e guarda corpos de escadarias e varandas, feitos artesanalmente por Luiz. Para tal ele utilizava um formão com os detalhes entalhados em seu fundo onde era despejado o cimento. Esses detalhes eram feitos de florais e símbolos geométricos. É por isso que Luiz precisa ser valorizado na história de Porto Novo. Graças ao seu talento temos em nossa região residências coloniais de considerável valor arquitetônico.  
A sua própria residência na Linha Chapéu foi construída em várias etapas, mas já na fundação se encontra a técnica escaiola presente, o que demonstra que Luiz trouxe a técnica do Rio Grande do Sul. A última etapa da construção é hoje a fachada frontal, que Luiz durante muito tempo deixou sem pintar aspecto que, segundo seu filho João, ao deixar o reboco à mostra proporcionava um maior requinte e originalidade à edificação. Essa curiosidade demonstra a preocupação de Luiz Ott com a originalidade de suas obras.
As residências que hoje estão presentes na paisagem da região histórica de Chapéu e Sede Capela (Itapiranga) e Macuco (São João do Oeste) precisam ser valorizadas pela comunidade local. Esse núcleo histórico é de considerável valor de memória para a região, tendo um potencial significativo para o turismo, para a cultura e para a história. A contribuição de Luiz Francisco Ott para a arquitetura local foi muito significativa e a valorização desses personagens da história de Porto Novo é uma obrigação para com a história dos colonizadores, porque reflete o conhecimento, a engenhosidade, a perspicácia, a criatividade e o valor de cultura que carregamos como herança do passado.



Residência Ott e os filhos Miguel e João, Linha Chapeu.

Residência Ott, Linha Chapeu.


Residência Düngersleben na atualidade. Linha Chapeu, Itapiranga.

Residência Burich, Linha Macuco. São João do Oeste


Residência Burich, Linha Macuco.

Guarda corpo na residência Ott.


Porta com detalhes entalhados na madeira. Residência Düngersleben

Escaiola na residência Ott

Escaiola na Residência Ott.

Residência Terhorst, Linha Chapeu.

Residência Machry, Linha Chapeu.  
Residência Sidegum/Machry. Linha Chapeu


Guarda corpo, residência Sidegum/Machry.
Escaiola feita de cimento branco, água e leite, na Residência Terhorst.

Porta com detalhes entalhados na madeira. Residência Ott.
Escada frontal, residência Düngersleben
Guarda corpo, Residência Düngersleben
Residência Ott, Linha Chapeu.
Residência Sidegum/Machry.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

O patrimônio imaterial de Itapiranga: o canto coral



por Douglas Franzen
Professor Uceff Itapiranga

O canto coral é outro elemento significativo para a cultura local. Presente desde os primeiros tempos da colonização é um valor cultural herdado da imigração alemã do século XIX.  As sociedades de corais em colônias alemãs do Brasil foram implantadas nos mesmos padrões das Gesangvereine e Singvereine, muito comuns na Áustria e na Alemanha do século XIX. Na visão de Gabriel e Souza (2017), na Europa essas instituições aglomeraram atividades culturais que até então eram vinculadas à instituições tradicionalmente constituídas e que perderam espaço na sociedade naquele período, como as cortes e as igrejas. No contexto da imigração “imigrantes alemães residentes em diversas regiões brasileiras procuraram perpetuar a tradição dessas sociedades corais europeias no Brasil com a fundação de suas próprias associações em território brasileiro” (GABRIEL; SOUZA, 2017, p. 88).
Em Itapiranga a prática coralista esteve muito atrelada à Igreja Católica, estimulada principalmente pelos padres jesuítas. É preciso destacar de que grande parte da prática do canto coral historicamente esteve atrelada a uma prática cultural sem fundamentação erudita. Ou seja, grande parte dos regentes de coral e dos cantores não possuía uma formação acadêmica. As comunidades que se formaram na colonização de Itapiranga constituíram um padrão social em que a prática religiosa era muito consistente, e nessa dinâmica se formou a tradição coralista, principalmente de vertente sacra.
Coral da Associação Cultural Fai, 2018

Membros de Corais de Itapiranga na celebração dos 90 anos de Porto Novo. 

Regentes de Corais homenageados pela Aceti.

A maioria das comunidades de Itapiranga possuía seu próprio coral, formado por homens e mulheres. Em alguns casos houve a ocorrência do coral masculino, formados por vozes de homens que se tornou um elemento muito presente na cultura local. Nesse sentido, um elemento muito importante para compreender o canto coral em Itapiranga foram as escolas paroquiais, onde em cada comunidade se instalava uma escola para a educação das crianças e adolescentes. Geralmente, como ocorreu na maioria das comunidades, o professor dessa escola era nomeado pela comunidade e pela colonizadora. O professor era uma personalidade e uma liderança na comunidade, lidava com questões de educação e de cultura, estando à frente de atividades culturais e recreativas, como era, por exemplo, a regência do coral. Nessas escolas paroquiais as crianças tinham instruções musicais e eram estimuladas no canto coral, o que colaborou na formação de uma cultura musical muito consistente (EIDT, 1999).

“Ter um coral para cantar nas missas era uma questão religiosa, mas também fazia bem ao ego dos habitantes locais, visto que a falta de um coral na comunidade diminuía a imagem da mesma e da sua gente. Nos anos 70, foram introduzidas as Associações Corais, as quais filiaram todos os simpatizantes e interessados, formando um órgão administrativo e mantenedor do coral. Neste esquema, o direito elementar do sócio aparece in memoriam et in réquiem, pois terá a presença do coral após a sua morte, na missa do seu enterro ou na de algum familiar seu” (JUNGBLUT, 2000, p. 354)

A prática do coral representa um elemento muito significativo para a cultura local. Está inserida no cotidiano das comunidades, nas práticas simbólicas e nas celebrações no espaço rural e urbano. Durante grande parte da história de Itapiranga, principalmente com a ausência da energia elétrica e da televisão, o canto representou um elo de pertencimento e de identidade, onde as pessoas se reuniam para cantar e celebrar. Nesse sentido, o canto coral é uma das várias manifestações musicais herdadas historicamente e ressignificadas pela dinâmica da cultura.
O canto cria laços afetivos e sensoriais com a história, mantêm vivo um sentimento de identidade e de pertencimento, a lembrança de um passado, das gerações antecessoras, da memória do imigrante e da terra natal Alemanha. Nesse sentido, o canto coral tem um papel significativo na dinâmica do patrimônio imaterial, porque permeia vários elementos significantes da identidade e da memória local. A identidade é uma construção social que se fundamenta na diferença, nos processos de alteridade ou de diferenciação simbólica. Para Arévalo, “a memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade, na medida em que ela é um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si” (ARÉVALO, 2004, p. 934).
No ano de 1964 foi fundada a Liga Cultural e Artística de Coros da Fronteira, entidade que engloba os corais de diversos municípios da região Extremo-Oeste de Santa Catarina. Em Itapiranga a entidade que coordena as atividades dos corais é a Associação Itapiranguense de Coros (Ascorita), que engloba treze corais do município. O fortalecimento dessas entidades demonstra o quão significativo é o canto coral para a história local permeando a concepção de patrimônio imaterial e sua relação de proximidade com a identidade cultural.
Apresentação Coral São Pedro Canísio.


Coral Municipal de Vozes Masculinas de Itapiranga

Referências de Pesquisa

ARÉVALO. J. M. La tradición, el Patrimônio y la identidad. In: Revista de estúdios extremeños, Vol 60, nº 3, p. 925-955, 2004.


GABRIEL, Ana Paula; SOUZA, Susana Cecília. Martin Braunwieser (1990-1991) e sociedades corais alemãs de São Paulo: práticas de repertório europeu. In: VIDEIRA, Mário; DE OLIVEIRA, Ísis Biazioli (Orgs.). Anais da Jornada Acadêmica Discente do Programa de Pós Graduação em Música ECA/USP. São Paulo: ECA-USP, 2017, p. 86-97.


JUNGBLUT, Roque. Documentário Histórico de Porto Novo. São Miguel do Oeste: Arco Íris Gráfica e Editora, 2000.